DO SILÊNCIO À PALAVRA
-...Não sei se não andei sempre a dizer a mesma coisa...
- Que coisa é essa?
- Escrever não é um processo límpido. A maior parte das vezes tenho a sensação de entrar num labirinto levado por um ritmo, de preseguir qualquer coisa que me foge e amo desesperadamente, e desesperadamente quero possuir, numa luta corpo a corpo, em que o ser se joga inteiro. Mas sobre isto não tenho ideias claras, e não é por se falar muito numa coisa que ela se torna transparente. Vou às cegas para o poema, como certos animais por instinto caminham para a morte. As palavras aí estão, amorfas, ainda. A mão, com infinita paciência, vai~-as aproximando, criam-se tensões entre algumas, outras fundem-se para a eternidade, e assim vai nascendo o poema. Ritmo, palavras, imagens, e a ordem de factores não é arbitrária. Um pequeno organismo começa a respirar, a exigir atenção. Compreende?
- Você falou também de como só depois de acabado o poema podia descansar. A poesia como um exorcismo...
- Sim, às vezes é isso. Sinto que me libertei de uma coisa que me oprimia ou me era dolorosa. Não sei se estou à frente ou mais atrás, nem sequer se caminhei. Sei que o poema é qualquer coisa que nos transforma. O poeta sonha sempre transformar o homem, mudar a vida. lembra-se de Rimbaud?
- Em muitos dos seus poemas tem-se impressão de que eles se adiatam a si. Quer dizer, se se ler um poema seu, fica-se com essa ideia depois. Há de vez em quando umas fulgrâncias que parecem não terem sido pensadas antes...
- Concebo a palavra poética como um empenho de todo o ser. Num poema confluem imagens muito antigas (de coisas simples, muito densas, como são sempre as coisas do corpo) e outras mais recentes. O que sei é que não me dá alegria fazê-lo (e sublinho este fazer, pois o poema tem sempre qualquer coisa de artesanal), porque a sua "espontaneidade" foi quase sempre tão dolorosamente conquistada que acabo por me fazer nojo. Então sei que está terminado.
- Você tem que estar sempre a escrever?
- Que ideia! Não, eu já estive anos sem escrever.
- E isso correspondia a quê da sua vida? Foram períodos que viveu intensamente?
- Escrevo normalmente em períodos de crise. Quase podia dizer que escrevo por carência. Por exemplo, Memória de outro Rio. É um livro que arranca de um período difícil. Há lá uma linha que diz: "Setembro foi mês de venenosas claridades". Não se escrevem coisas assim amargas sem uma razão...
Este amargo tem que ver com Você sentir que está num período de transição, a passar de um tempo em que o desejo tinha primazia para um outro tempo que não conhece ainda? Estou a lembrar-me de versos seus como "o desejo, esse cão, ladra-me agora menos à porta", no limiar dos Pâssaros, "Há um homem neste poema e envelhece"... e tantos outros no mesmo sentido...
- Você sabe que na minha poesia há uma procura de plenitude. O homem nos meus poemas, busca um rosto, o seu próprio rosto. É uma procura incessante. A relação entre os seres participa dessa mesma busca. Procuro olhar as pessoas nos olhos, o que não é fácil, e menos fácil ainda é que uma tal exigência se mantenha na relação entre os seres. A mim aconteceu-me na vida ter tido alguns encontros muito plenos, mas por uma razão ou por outra, essas coisas têm um fim.
- Isso é a própria condição desses encontros. Mas você não aprende com isso...
- Outra coisa não me interessa. É preciso arder. E não só nos versos.
- Mas Você que conhece tão bem o fogo, sabe que o fogo tem várias fases. Há momentos em que ele fica a arder sem chama. Você não conhece em si essa transformação?
- Sim, agora, talvez... Mas pertenço a uma raça que terá sempre a fascinação da chama.
- Vê isso com melancolia ou como uma aquisição, uma vitória?
- "Quem fala de vitória?", perguntava Rilke. A vida a nossa vida, ninguém pode vivê-la por nós. E uma relação que começou esplendorosa pode vir a tornar-se baça. Então há que ter a coragem de recomeçar.
- Essa maneira de viver as relações traz a solidão, a partir de certo momento. Quando não se estabelecem alianças para a vida...
- A solidão não é forçosamente negativa, pelo contrário, até me parece um privilégio. Talvez a minha solidão seja excessiva, mas eu detestei sempre as coisas mundanas. Estar com as pessoas apenas para gastar as horas é-me insuportável. cada vez mais. De há uns anos para cá vivo em casa, vejo uns amigos...
- Mas você é o contrário de um bicho de mato. Vê-se que gosta das pessoas, que precisa que elas lhe dêem atenção.
- Gosto porque as vejo muito pouco. Reservo o tempo para trabalhar. Ler, ouvir música, às vezes escrever.
- Você podia não ser poeta?
- Parece-me que tudo quanto fiz, tudo quanto longamente acariciei com o olhar, foi só para escrever um verso. Tenho a impressão que sacrifiquei tudo - escola, profissão, até mesmo as pessoas - à poesia. E continuo. Se fosse católico diria que era levado a escrever para salvar a alma.
- Como vai ser a sua vida daqui a vinte anos?
- Daqui a vinte anos espero estar morto e bem morto, acho a velhice uma coisa horrível.
- A que chama velhice?
- À ruína do corpo, o peso sobre os outros, o desamparo...
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- Ainda no outro dia seguia com um grupo de jovens num comboio para Lisboa. Eles falavam de liberdade. Fui-os interrogando e eles afirmavam uma grande frontalidade nas suas relações eróticas. A certa altura perguntei: "E se entre vocês se verificasse que havia um homossexual, e que ele também tinha direito ao seu desejo? Ficaram todos muito atrapalhados. Vê? A liberdade que defendiam era apenas a de pertencer ao rebanho. E nas relações entre homens e mulheres, o que é que se passa? Não acham que o machismo continua a afirmar-se de maneira escandalosa? Com a cumplicidade, mais escandalosa ainda, de tanta e tanta mulher.
Entrevista a Eugénio de Andrade
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